...E assim vedes, meu irmão, que as verdades que vos foram dadas noGrau de Neófito, e aquelas que vos foram dadas no Grau de adepto Menor, são ainda que opostas, a mesma verdade.
DO RITUAL DO GRAU DE MESTRE DO ÁTRIO NA ORDEM TEMPLÁRIA DE PORTUGAL.
Conta a lenda que dormia
Um princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.
Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à princesa vem.
A princesa adormecida,
Se espera, dormindo espera.
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, um grinalda de hera.
Longe o infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado.
Ele dela é ignorado.
Ela para ele é ninguém.
Mas cada um cumpre o Destino
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.
E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro
E, vencendo, estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora.
E, inda tonto do que houvera,
À cabeça em maresia,
ErRgue a mão e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.
Fernando Pessoa
Comentando o texto:
O poema acima faz uma alusão aos amantes mitológicos Eros e Psique. Eros é o Deus romano do amor e desejo.Psique significa "Alma" em grego, uma mulher mortal, bela.
O mito constitui-se como metáforas básicas da experiência, ou seja, sabedoria acumulada.
Podemos observar que o poema apresenta forte caráter narrativo, com a ocorrência de personagens, enredo e desfecho, como já fica sugerido pela expressão inicial "conta a lenda".
Compreendemos o texto como sendo a ação de uma força externa, distinta da consciência do Infante e da consciência da Princesa, que faz haver uma certa estrada. Estrada essa que endossa a visão de mundo que pode ser expressa pelo ditado "Caminhante se não há caminho, o caminho se faz ao andar" (marca enfática neste poema). Isto nos mostra claramente que o texto se solidariza com a idéia de que não há caminho predestinado, nem certo, nem errado, mas a perseverança e a força de vontade é que torna esse caminho ou estrada longa a partir da existência de dois seres para que cada tenha conhecimento pleno do outro.
As metáforas existentes no texto, mostram uma nova forma de cantar ou louvar o amor, para que haja a plena realização do potencial de cada um.
Ao lermos este poema em voz audível, podemos perceber que este louvor é intenso pela presença marcante dos verso hectassílabos e das palavras paroxítonas no final de cada verso.
Num texto profundamente literário como este, é preciso ler e perceber que nas entrelinhas é pluri-significativo. Atualiza assim de uma forma implícita a história de Romeu e Julieta, de Shakespeare, pois novamente vemos o encontro, ou o amor, impossível em face do mundo que impões circunstãncias e limitações familiares, sociais, culturais, religiosas e outras.
Podemos obsevar também neste texto que ele nos apresenta uma coerência interna e uma visão de mundo própria. O texto pode dialogar com outro texto fixado pela escrita e traduçao oral, ocorrendo desta forma o fenõmeno da intertextualidade.
Intertextualidade esta presente no poema pois dialoga com narrativa como a de Bela Adormecida, em que há um conflito entre dois pólos: o mal e o bem, o qual é o amor que a tudo redime.
Em Eros e Psique, acontece a busca e a espera, o exterior e o interior, o desconhecimento e a descoberta_são ainda que opostos, pólos de uma mesma unidade.
Unidade esta que nos leva a um cenário: apenas a união dos amantes em um único e definitivo destino, significando a vitória do amor.
Eros e Psique pode nos dizer muito sobre quem somos. Que o feminino e o masculino está dentro de cada um, para ser vivido ao seu tempo, ao seu modo... com amor por ambos.
Podemos dizer que a mitologia é a penultima verdade_ penúltima porque a última não pode ser transportada em palavras. Está além das palavras e imagens, por isso é a penúltima verdade.
Rose