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Blog EntryEros e PsiqueOct 30, '07 12:48 PM
for everyone

...E assim vedes, meu irmão, que as verdades que vos foram dadas noGrau de Neófito, e aquelas que vos foram dadas no Grau de adepto Menor, são ainda que opostas, a mesma verdade.

DO RITUAL DO GRAU DE MESTRE DO ÁTRIO NA ORDEM TEMPLÁRIA DE PORTUGAL.

Conta a lenda que dormia

Um princesa encantada

A quem só despertaria

Um Infante, que viria

De além do muro da estrada.

 

Ele tinha que, tentado,

Vencer o mal e o bem,

Antes que, já libertado,

Deixasse o caminho errado

Por o que à princesa vem.

 

A princesa adormecida,

Se espera, dormindo espera.

Sonha em morte a sua vida,

E orna-lhe a fronte esquecida,

Verde, um grinalda de hera.

 

Longe o infante, esforçado,

Sem saber que intuito tem,

Rompe o caminho fadado.

Ele dela é ignorado.

Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino

Ela dormindo encantada,

Ele buscando-a sem tino

Pelo processo divino

Que faz existir a estrada.

 

E, se bem que seja obscuro

Tudo pela estrada fora,

E falso, ele vem seguro

E, vencendo, estrada e muro,

Chega onde em sono ela mora.

 

E, inda tonto do que houvera,

À cabeça em maresia,

ErRgue a mão e encontra hera,

E vê que ele mesmo era

A Princesa que dormia.


 

    Fernando Pessoa

 

Comentando o texto:

O poema acima faz uma alusão aos amantes mitológicos Eros e Psique. Eros é o Deus romano do amor e desejo.Psique significa "Alma" em grego, uma mulher mortal, bela.

O mito constitui-se como metáforas básicas da experiência, ou seja, sabedoria acumulada.

Podemos observar que o poema apresenta forte caráter narrativo, com a ocorrência de personagens, enredo e desfecho, como já fica sugerido pela expressão inicial "conta a lenda".

Compreendemos o texto como sendo a ação de uma força externa, distinta da consciência do Infante e da consciência da Princesa, que faz haver uma certa estrada.  Estrada essa que endossa a visão de mundo que pode ser expressa pelo ditado  "Caminhante se não há caminho, o caminho se faz ao andar" (marca enfática neste poema). Isto nos mostra claramente que o texto se solidariza com a idéia de que não há caminho predestinado, nem certo, nem errado, mas a perseverança e a força de vontade é que torna esse caminho ou estrada longa a partir da existência de dois seres para que cada tenha conhecimento pleno do outro.

As metáforas existentes no texto, mostram uma nova forma de cantar ou louvar o amor,  para que haja a plena realização do potencial de cada um.

Ao lermos este poema em voz audível, podemos perceber que este louvor é intenso pela presença marcante dos verso hectassílabos e das palavras paroxítonas no final de cada verso.

Num texto profundamente literário como este, é preciso ler e perceber que nas entrelinhas é pluri-significativo. Atualiza assim de uma forma implícita a história de Romeu e Julieta, de Shakespeare, pois novamente vemos o encontro, ou o amor, impossível em face do mundo que impões circunstãncias e limitações familiares, sociais, culturais, religiosas e outras.

Podemos obsevar também neste texto que ele nos apresenta uma coerência interna e uma visão de mundo própria. O texto pode dialogar com outro texto fixado pela escrita e traduçao oral, ocorrendo desta forma o fenõmeno da intertextualidade.

Intertextualidade esta presente no poema pois dialoga com narrativa como a de Bela Adormecida, em que há um conflito entre dois pólos: o mal e o bem, o qual é o amor que a tudo redime.

Em Eros e Psique, acontece a busca e a espera, o exterior e o interior, o desconhecimento e a descoberta_são ainda que opostos, pólos de uma mesma unidade.

Unidade esta que nos leva a um cenário: apenas a união dos amantes em um único e definitivo destino, significando a vitória do amor.

Eros e Psique pode nos dizer muito sobre quem somos. Que o feminino e o masculino está dentro de cada um, para ser vivido ao seu tempo, ao seu modo... com amor por ambos.

Podemos dizer que a mitologia é a penultima verdade_ penúltima porque a última não pode ser transportada em palavras. Está além das palavras e imagens, por isso é a penúltima verdade.




Rose

 


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