a onda anda
aonde anda
a onda?
a onda ainda
ainda anda
aonde?
aonde?
a onda a onda
Manuel Bandeira
Comentando o texto:
Não poderia deixar de postar este texto tão lindo de Bandeira por gostar tanto do mar.
O que mais nos chama a atenção já na primeira leitura do poema, é o uso de paranomásias, ou seja palavras parecidas. a palavra chave com variações na fonologia e "onda" que dá título ao poema. Esta busca, por meio justamente do emprego das paranomásias, de anáforas e de combinação múltipla de um repertório pequeno de vocábulos imitar o movimento da onda. As palavras vão descrevendo uma sonoridade arredondada, que produz uma espécie de letargia, de embriaguez.
Se ao lermos em voz audível, teremos a sensação de estar recitando um "mantra" ou espécie de ladainha. Se ao lermos muitas vezes, poderemos cair num sono gostoso.
O que se pretende realmente obter é uma fluidez sonora, em que as palavras percam sua singularidade e se assemelham cada vez mais. Mesmo que isso comprometa a regência verbal. A construção "aonde anda a onda?" talvez cause espanto. Não se deveria perguntar "para onde anda a onda?" Sim, seria a forma correta. A simples presença do para quebraria toda a musicalidade do poema e tornaria um poema insensível.
A sensiblidade de Bandeira, não admitiria somente seguir um padrão gramatical. Podemos observar que os vocábulos escolhidos, selecionados, exprimem as flutuações do mar, o ritmo da água, tornando o poema tão líquido e musical.
Observamos ainda o interessante paralelismo "ainda onda/ ainda anda". A onda é onda quando anda, a onda é onda quando em movimento. Se ela pára, não é mais onda, não anda. A repetição final do poema a onda a onda parece dar um murro em ponta de faca, parece se quebrar no rochedo ou morrer na praia. E a repetição indica que a linguagem também já não caminha,... não progride, mas está paralisada como a onda, não mais onda porque não mais se movimenta.
Rose