Vi ontem um bicho
na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos
Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.
O bicho não era um cão
Não era um gato,
Não era um rato.
O bicho, meu Deus era um homem.
Manuel Bandeira
Comentando o texto:
Neste poema, Bandeira utiliza o processo de metaforização em busca de uma unidade de ação sintetizada.Unidade esta que mostra a metáfora de base animal nele contido.
Observamos através de sequências frasais, o processo de animalização marcado pela degradação humana, colocando o homem em nível dos animais. Podemos ver isto claramente através dos verbos de ação: catando, achava, examinava, cheirava, e engolia.
Notamos que estas ações são colocadas num eixo de referência contínuo, possuindo assim uma profunda coerência semântica.
É enfático que este poema é de cunho social, onde o poeta expressa em uma linguagem simples, mas ao mesmo tempo profunda, pois serve para alertar-nos sobre o que acontece na sociedade em que vivemos.
Os substantivos presentes (imundície, comida, detritos, coisa e voracidade) possuem um mesmo campo semântico, conotando assim um traço disfêmico, porque eles contêm um sema não-humano, reforçando assim o núcleo metafórico bicho numa dinâmica concentradora. E isso é constante através de metáforas periféricas (cão, gato, rato) evidenciando o caráter animalizante patente.
Percebemos que o poeta expõe nas entrelinhas a sua visão de um mundo degradante através de metáforas de base animal, onde o próprio utiliza de um vocativo (Meu Deus) mostrando toda a sua indignação e incredulidade em face de um mundo que não o pertence. Ele busca através do vocativo uma explicação de como o homem; "imagem e semelhança"; pode chegar a este ponto. Ele busca no seu próprio eu algo que não consegue decifrar.
Onde iremos parar em face do que presenciamos? O que podemos fazer para que haja realmente mudanças? Continuaremos neutros e apáticos?
Esta foi uma maneira que encontrei para manifestar a degradação humana em si e que está sempre presente em nosso cotidiano.
Este comentário foi baseado em uma monografia desenvolvida por mim; em um curso de pós-graduação na UERJ. A monografia intitula-se "A metáfora em Bandeira".
Rose