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Blog EntryO bichoApr 9, '08 8:23 AM
for everyone

Vi ontem um bicho

na imundície do pátio

Catando comida entre os detritos

 

Quando achava alguma coisa,

Não examinava nem cheirava:

Engolia com voracidade.

 

O bicho não era um cão

Não era um gato,

Não era um rato.


O bicho, meu Deus era um homem.

 

Manuel Bandeira

Comentando o texto:

Neste poema, Bandeira utiliza o processo de metaforização em busca de uma unidade de ação sintetizada.Unidade esta que mostra a metáfora de base animal nele contido.

Observamos através de sequências frasais, o processo de animalização marcado pela degradação humana, colocando o homem em nível dos animais. Podemos ver isto claramente através dos verbos de ação: catando, achava, examinava, cheirava, e engolia.

Notamos que estas ações são colocadas num eixo de referência contínuo, possuindo assim uma profunda coerência semântica.

É enfático que este poema é de cunho social, onde o poeta expressa em uma linguagem simples, mas ao mesmo tempo profunda, pois serve para alertar-nos sobre o que acontece na sociedade em que vivemos.

Os substantivos presentes (imundície, comida, detritos, coisa e voracidade) possuem um mesmo campo semântico, conotando assim um traço disfêmico, porque eles contêm um sema não-humano, reforçando assim o núcleo metafórico bicho numa dinâmica concentradora. E isso é constante através de metáforas periféricas (cão, gato, rato) evidenciando o caráter animalizante patente.

Percebemos que o poeta expõe nas entrelinhas a sua visão de um mundo degradante através de metáforas de base animal, onde o próprio utiliza de um vocativo (Meu Deus) mostrando toda a sua indignação e incredulidade em face de um mundo que não o pertence. Ele busca através do vocativo uma explicação de como o homem; "imagem e semelhança"; pode chegar a este ponto. Ele busca no seu próprio eu algo que não consegue decifrar.

Onde iremos parar em face do que presenciamos? O que podemos fazer para que haja realmente mudanças? Continuaremos neutros e apáticos?

Esta foi uma maneira que encontrei para manifestar a degradação humana em si e que está sempre presente em nosso cotidiano.

Este comentário foi baseado em uma monografia desenvolvida por mim; em um curso de pós-graduação  na UERJ. A monografia intitula-se  "A metáfora em Bandeira".


Rose

 


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